Sociedade

Subsidiodependencia. A verdade que Rui Rio e André Ventura não querem ver

Ultimamente temos ouvido o dr. Rui Rio (que de certo modo legitima o discurso do Chega) e o André Ventura a proclamar um vício nocivo que afeta a população mais pobre e, ainda mais especificamente para André Ventura, algumas etnias que açambarcam os benefícios sociais, sendo, portanto, subsidiodependentes. Veremos o que os dados existentes têm a dizer sobre essa realidade: será verdadeiro ou, como sempre, são fruto do julgamento fácil para granjear votos? 

            Pode ser fácil cair nesta armadilha de retórica da generalização fácil, mas é algo que já começamos a ficar habituados quando o fala-barato do Chega intervém. Está a ganhar alguns hábitos perniciosos que são comuns aos seus mestres Bolsonaro e Trump. Em cada frase que pronunciam dizem algumas mentiras ou incorreções.

            A Segurança Social publica estatísticas com caráter mensal. Já se sabe que haverá quem crie uma narrativa fantástica, com mitos provenientes das teorias da conspiração, de que os números serão imprecisos ou que ocultam a verdadeira realidade. Nesse caso, basta confrontar as estatísticas com o Orçamento e conta da Segurança Social ou outros organismos (INE ou Pordata, por exemplo).

            Os dados mais recentes são de 1 de novembro, reportando-se a outubro de 2020, e colocam como beneficiários do RSI o número de 211 214 pessoas. Neste total, o escalão etário que tem mais beneficiários são os menores de idade, mais precisamente 68 433 indivíduos. Em termos de distribuição por sexo, cabe ao sexo feminino a maioria dos beneficiários, 109 567 (sexo masculino apresenta 101 647 beneficiários).

            Outro mito que circula está relacionado com o valor pago pela Segurança Social. Mais uma vez, essa informação também é pública. A informação indica que o valor médio processado de prestação do RSI por beneficiário, pasme-se o leitor com o valor avultado, é de 119,04€. Não são milhares como algumas das fake news nos querem fazer crer. São, permitam-me repetir: 119,04€.

            Portugal tem 10 295 909 de população residente; o número total de beneficiários são 211 214 e recebem, em média, 119,04€. Como é possível alguém afirmar que existe uma cultura de subsidiodependência, quando, na verdade, apenas 2% da população recebe 18,75% de um salário mínimo nacional e a faixa etária que mais beneficiários corresponde a quem tem menos de 18 anos? Compare-se esses 2% da população que é beneficiária do RSI com os 21,6% de população em risco de pobreza ou exclusão social.

            É impreciso afirmar que quem recebe o RSI não queira trabalhar, ou que receba mais do que a figura idealizada do esforçado, puro e honesto trabalhador como o Chega e, agora, o dr. Rui Rio, nos quer fazer acreditar. Os dados estão publicados para quem quiser consultar e negam essa realidade. É muito fácil cair na tentação, para ganhar mais votos ou provar quem está mais contra o sistema, de apontar inimigos públicos causadores de todo o mal que nos assola (Hitler conseguiu isso com os judeus e o resultado também é conhecido de todos).

            Mais do que ouvir/ler soundbites, é necessário avaliar e criticar a veracidade de cada afirmação. Na maioria das vezes é possível surpreendermo-nos com o contraste entre os dados e o que se fala.

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2 thoughts on “Subsidiodependencia. A verdade que Rui Rio e André Ventura não querem ver

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